Perfeccionismo
- Maíra Colombarolli
- 7 de jul. de 2020
- 2 min de leitura
Discursos de autocontrole e autodisciplina se tornaram apelativos apesar de pouquíssima gente entender que a o comportamento guiado pela racionalidade (muitas aspas nesse termo) e orientado a objetivos não é mero fruto de uma escolha consciente. Para uma sociedade que se baseia fortemente na crença de que as pessoas tem possibilidades de escolha, e colhem seus frutos de forma proporcional, admitir que o livre-arbítrio tem limitações não apenas sociais, mas biológicas, cria uma dissonância que não é tão simples de encarar.
Nesse sentido, o que a aclamada filosofia do “self-made” (ou a cultura da autorrealização) ignora é que boa dose da capacidade das pessoas em serem disciplinadas, persistentes e organizadas tem muito mais a ver com um traço de personalidade do que com uma decisão. Isto é, para algumas pessoas, ser sistemático, ponderado, obstinado, é um modo de ser intuitivo, e essas pessoas não tem que empregar uma grande energia para serem assim, isso acontece independente de muito esforço. E como tal, não é que temos realmente controle do quanto podemos ser ou não perseverantes em um determinado objetivo, ou do quão fácil é escolher sê-lo. O que ninguém revela, porém, é que essa inclinação natural à disciplina esconde um possível medo constante de fracasso. Isso porque num mundo em que causas e consequências parecem ter uma relação linear, é muito difícil assumir erros como resultado de circunstâncias que nós não pudemos prever.
O perfeccionismo surge, então, como um efeito colateral indesejado desse controle obsessivo e excessivo. Ao simplificar as variáveis, para poder controlá-las, cria-se uma falsa percepção de causa e efeito controláveis (“se eu fizer A, obterei o resultado B”), e a falsa percepção do fracasso absoluto caso A não leve ao B almejado. O resultado disso? Culpa, frustração, insatisfação. A insatisfação, por sua vez, retroalimenta a obstinação pelo controle, a ideia de que “eu não cheguei ao meu objetivo porque eu não fui controlado o suficiente, disciplinado o suficiente, eu fracassei”. E esse ciclo não tem fim, porque o resultado ideal não existe, ou está sempre mudando pra algo que é mais ideal, mais perfeito, mais desejável. Como diz o ditado, “quem não sabe o que busca, não encontra o que acha”.
Logo, se esse ciclo parece ser trabalhoso e difícil até pra quem é naturalmente mais regrado, imagina esperar que alguém mais espontâneo, impulsivo, intuitivo, siga esse padrão? E mais, por que esperar que todas as pessoas se comportem dentro desse padrão? Por que compramos a ideia do “sucesso“, sem nem ao menos saber definir o que ele é? A narrativa de “eu sou mais rico porque eu trabalho mais que você”, “eu sou mais inteligente porque eu estudo mais que você”, “eu sou mais saudável porque eu como melhor que você”, “eu sou mais produtivo porque eu acordo mais cedo que você” serve a que finalidade? E você se sente um fracasso sem questionar se esses resultados são realistas ou fazem sentido pra você?
